Como você define seu voto em um país democrático?
É essa a pergunta que a maioria esmagadora dos brasileiros não sabe responder. Por que? Porque não existe capacidade de estabelecer o que significa realmente o peso do seu voto.
A maioria da população não tem acesso à informação e conteúdo da relação de cada cidadão com a política. Quantas vezes não ouvimos esta frase: "Não sou direita, nem esquerda"...Tudo bem, então se é o que? Como se vota se não houver uma definição da ideologia política, que demonstre qual é a intenção de um partido político quando tiver poder de decisão sobre a vida e morte do cidadão através de leis e ações?
A verdade é que não existe educação política. Claro, a escola ensina que temos uma Constituição e os três poderes, Judiciário, Executivo e Legislativo. Mas ninguém entende direito o que isso significa e como um regime democrático pode se transformar em um autoritarismo do Legislativo com o voto manipulado e inconsequente!
No palanque improvisado sobre um caminhão, a pessoa, em meio ao grupo que se espremia na carroceria, de microfone em punho, berrava aflito que "as elites não iriam impedir a classe trabalhadora de revolucionar este país" e abertamente reforçava o discurso de "elite x povo".
Esquerda é isso?
É essa a confusão do brasileiro (e de cidadãos do mundo todo) quando se fala em política e resume-se à questão dos conflitos em duas metades: direita e esquerda!
Será assim tão simples?
"Esquerda e direita" ajudou a definir a luta da população na Revolução francesa, no finzinho do século 18, quando a situação ficava à direita e os insatisfeitos à esquerda do presidente no parlamento. Ou seja, foi casual, mas marcou a referência: aqueles que desejavam manter uma política basicamente voltada para o capital, pragmática e seletiva (lado direito) e aqueles que não aceitavam essa condição rebaixamento social, reivindicando maior justiça social, equiparando as condições de sobrevivência de todos os cidadãos (sentados do lado esquerdo)
A simplificação da política não foi bem sucedida. Houve subdivisões da ideia "direita, esquerda" e surgiram na Europa as variações que buscavam uma realidade prática da política.
A esquerda, assim como a direita, tem seus extremos e portanto houve necessidade de nominar as caracteristicas dos movimentos políticos. Extrema esquerda entre os mais radicais, que defendiam o comunismo e o trotskismo (nivelamento da sociedade).
Centro-esquerda os grupos que defendiam o socialismo-democrático, progressistas e social-democratas (e ambientalistas, humanistas). Nesse caso não há rejeição ao capital e aos recursos econômicos, mas também não se exclui os direitos humanos básicos.
Já a direita também pode ser dividida entre radicais (com politicas que chegam ao fascismo ou nacional socialismo), conservadores que privilegiam o pragmatismo e o capital em detrimento das condições da massa, se assim for preciso, ou democratas cristãos, que são conservadores em assuntos sociais.
A interpretação de que "esquerda é comunismo" é um equívoco alimentado pela "direita", que explorou o receio da massa em perder bens e liberdade com "essa ameaça". O comunismo é apenas uma ideologia de esquerda, baseado na teoria da igualdade, que dificilmente conseguiu ser aplicada.
A predominância da esquerda é a democracia baseada na redução da pobreza e na abertura de condições de sobrevivência dignas, com acesso à educação e saúde. Não pretende nivelar a sociedade, mas evitar desajustes que levem ao desequilíbrio nocivo do meio. Seria o chamado Progressismo, que admite o capital, mas busca redução da concentração da riqueza em uma minoria (que aumenta a pobreza e sobrevivência da maioria) e o acesso de toda a população a educação e saúde de qualidade.
Não tem cabimento interpretar a esquerda como "comunismo" ou anti-democracia. O problema é a verdadeira barafunda que polariza e acaba servindo de escada para a extrema direita.
E assim como os radicais de direita, os radicais de esquerda tem um ponto comum: reforçam a ideia de luta de classes e a existência de uma "raça superior" traduzida na palavra "elite".
Elite, na verdade, ´traduz o que é mais valorizado. Ora, usar esse termo em um momento de confusão da informação, como este que vivemos, acaba reforçando também a ideia de fragilidade popular, diante de "semideuses" valorizados.
O termo "elite e plebe" portanto, é uma arma contra a democracia de fato, usada pelos extremistas de direita e de esquerda. Prejudica a esquerda que busca o equilibrio através da democracia, discutindo a miséria e as políticas econômicas de maneira mais realista e produtiva para todos, ricos, remediados ou pobres!
Hoje não temos nobreza. Apenas pobreza. Esse tipo de discurso de classes fortalece setores conservadores e ratifica a sensação de fragilidade da sociedade. Aí temos este quadro: de um lado os grupos que têm poder econômico (e portanto político). De outro os grupos sociais e politicos que misturam teorias de esquerda radicais e pouco funcionais (não há muito espaço para defesa de divisão equitativa entre os cidadãos do mundo) e aqueles que de fato defendem a democracia plena, buscando um equilibrio das realidades. E no meio temos a imensa massa de pessoas que não entende nada e fica balançando entre um e outra influência. (Mirna Monteiro)



