segunda-feira, março 25, 2013

A DECEPÇÃO DE TIRIRICA A SERVIÇO DA NAÇÃO

Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como o palhaço Tiririca e eleito para a Câmara Federal com 1,3 milhão de votos, anunciou que vai desisitir da política. Como cidadão achava que a boa intenção seria suficiente bagagem para propor mudanças no Congresso; como deputado federal descobriu que não conseguiria mudar coisa alguma!
A decepção de Tiririca não é problema pessoal, mas brasileiro. Legisladores funcionam sob um ritmo extremamente limitado para as mudanças necessárias na legislação brasileira, sempre sob críticas, que sugerem compromissos pessoais com questões politicas, partidárias e financeiras em detrimento de necessidades do país.
Constatar que não existe um conjunto voltado para um mesmo objetivo - o de cumprir o mandato trabalhando apenas projetos de interesse do país - é comum entre aqueles que vencem pleitos eleitorais aproveitando-se do fato de serem, de alguma forma, conhecidos do público.
Objeto de desejo dos partidos, pelo fato de aumentar a representação e o poder partidário nas cadeiras da Câmara e do Senado, essas pessoas enfrentam o pleito, recebendo em geral votação expressiva, mas no momento do trabalho descobrem que não basta ter vontade para chegar a algum objetivo prático. A questão nem é acadêmica ou cultural. É mesmo o defeito do sistema que "fecha" aos deputados tentativas de atuar de maneira idealista, conforme o imaginário popular.
Qualquer parlamentar pode propor projetos, como garante a Constituição Federal. Mas para ser votada, a proposição vai depender do parecer das comissões que recebem o encaminhamento da proposta pelo presidente da Câmara Federal. Na prática isso pode levar mais tempo do que se espera. Talvez até o tempo do mandato, como denuncia Francisco Everardo.
Circunstância criada pelas própria regras do regimento interno, que na teoria pretende organizar proposições de acordo com a emergência do país, mas que na prática acaba atravancando votações de  leis de importância fundamental.
A inoperância do Legislativo sempre foi motivo de crítica. E de raríssimas modificações que tornassem o trabalho mais claro, eficiente e satisfatório, definindo de maneira transparente quem faz o que dentro do Congresso, que transformou-se em um misterioso centro de disputas políticas ao invés de cumprir rigorosamente o seu papel legislador.
"Deputados se acham demais", diz Francisco Everardo, depois de comprovar que certamente irá decepcionar 1,3 milhão de votos que o colocaram no Congresso.
Mas mesmo com sua inoperância e na incômoda situação de ser mais um deputado que usufrui de alta remuneração e outras mordomias sem resultados práticos de trabalho, Everardo, o Tiririca, presta um serviço à nação: "Eu pensei que chegando à condição que cheguei, ia lá e aprovaria projetos que iam beneficiar a população e essas coisas todas, mas não é assim. Há outros interesses"...
Interesses que subsistiriam em todos os níveis do poder Legislativo, onde o bom-senso pode ser atropelado por interesses políticos.
Bem, além de confirmar o que todos os brasileiros já desconfiavam, ("até agora  não sei bem para que serve um deputado federal", disse em entrevista) Tiririca demonstra respeito ao eleitor não faltando às sessões, como é comum entre os parlamentares, ficando em sexto lugar entre os sete deputados que nunca deixaram de comparecer ao plenário. Já é um bom exemplo para os pares e um certo consolo para quem reclama de voto perdido.

quinta-feira, março 14, 2013

PENA LEVE PARA MIZAEL BISPO

Considerado culpado pelo assassinato da advogada Mércia Nakashima, Mizael Bispo recebeu pena extremamente branda: vinte anos, que na prática podem ser transformados em apenas 8 anos com o regime de progressão de pena.
A leveza da pena surpreendeu a família e populares. A exemplo da condenação do ex-goleiro Bruno, que foi condenado a 22 anos e três meses de prisão, Mizael gozará de breve estada na prisão, engrossando a listagem de pessoas que cometeram assassinatos considerados hediondos e que mesmo assim tornam-se cidadãos livres a curto prazo.
A pergunta é a seguinte: por que assassinos confessos ou condenados obtém penas iguais ou menores a de outros crimes considerados de menor gravidade?
Assassinatos não são o crime mais grave? Como ter condescendência com criminosos que tiram a vida de outra pessoa?
Do ponto de vista ético não haveria condição de evitar a pena máxima em casos de assassinato a não ser em situação de legítima defesa ou homicídio culposo, onde não há a intenção de matar. Mas qualquer assassinato premeditado ou violento não pode ser considerado passível de ser cometido por "alguém bonzinho" ou socialmente aceitável. Não existe isso! Quem mata pode parecer "normal" . Mas não é, pois ultrapassou a linha perigosa de uma ação temida por toda a sociedade.
Para isso temos leis e tribunais. Para retirar do meio indivíduos que mostraram um comportamento perigoso, que pode repetir-se.
Foi comovente uma gravação feita pelo celular por uma criança de onze anos, que denunciou um indivíduo perigoso, que estava sendo solto mesmo com a acusação de ter estuprado e matado outra adolescente.
Esse sujeito iria de novo para as ruas e sem dúvida pepetuaria as suas vítimas. É preciso reconhecer que a presunção da inocência não pode ser confundida com a realidade do risco de morte!
Há um extremo desleixo com a vida! E isso está acontecendo também em nossos tribunais, onde parece haver condescendência demais com assassinos.
Qual a diferença na gravidade do crime cometido por Suzane von Richthofen e os irmãos Cravinhos, que mataram o casal Richthofen enquanto dormiam, do crime cometido por Bruno Fernandes de Souza e comparsas que terminou com esquartejamento e sumiço do corpo de Elisa Samúdio ou ainda do crime de Mizael Bispo, que também foi cruel na premeditação e sumiço do corpo de Mércia Nakashima?
Suzane e os Cravinhos foram condenados a quase quarenta anos, o que parece uma condenação lógica a ser aplicada a qualquer assassinato premeditado e cruel. Não é possível entender as benécias recebidas pelo ex-goleiro Bruno ou por Mizael Bispo, que cometeram crimes de gravidade semelhante.
O receio é a impunidade - e penas leves são um estímulo a violência - que pode levar à maior banalização da vida humana. Mata-se sem grande receio da punição. Onera-se muito mais a sociedade tanto moral, como financeiramente e não se cumpre com o objetivo maior da lei que é preservar o meio de indivíduos que cometem atos violentos. (AC)


terça-feira, março 12, 2013

COLCHONETES NO CALCANHAR DA JUSTIÇA


Até que ponto um advogado pode atropelar a verdade e o senso de justiça na tarefa de defender seu cliente?

A sequência de julgamentos de casos que movimentam a opinião pública e os novos recursos que permitem ao cidadão acompanhar o teor dos argumentos de promotoria e defesa tem mais do que aspectos positivos, como a conscientização popular de que a sociedade mantém um sistema judiciário funcional. Demonstra também a necessidade de recuperação da ética nos tribunais pelos defensores.
O maior problema parece ser a falsa impressão de que "vale-tudo" nos tribunais, para acusar ou absolver alguém. O que é apenas uma falha do sistema, que é conhecida popularmente nos embates  ficcionais de bandidos e mocinhos que se enfrentam nas telas de cinema, muito mais do que na literatura, na base de quem pode mais, em uma briga ardilosa onde verdade e justiça são meras circunstâncias e não o objetivo. Onde o  que importa é o jogo psicológico, nem sempre ético ou moral.
Podemos analisar o ocorrido no julgamento de Mizael Bispo, acusado de assassinar Mércia Nakashima. Seria justificavel, na tentativa de obter atenuante, confrontar o irmão de Mércia em seu depoimento sugerindo que a advogada assassinada seria "garota de programa" porque um dia Mizael teria visto em seu carro "um colchonete no banco de trás"?...
Nada mais, nenhuma prova, apenas palavras.  Se o acusado não é obrigado a fornecer provas contra si mesmo, é claro que  promotoria ou defesa não podem pretender criar dúvidas a respeito da vítima ou testemunhas com afirmações aleatórias ou construídas, sem incorrer na difamação.
É uma questão que deveria ser tratada com seriedade e rigorosidade, a começar pela própria OAB - Ordem dos Advogados do Brasil, que tradicionalmente também atua como uma entidade  de colaboração jurídica e social.

"UMA COMPROVAÇÃO DE PERITOS PODE SER 
DESPREZADA OU CONTESTADA SEM OUTRA
COMPROVAÇÃO DE IGUAL VALOR CIENTÍFICO?"

Ora, permitir que advogados se utilizem desse tipo de recurso ao invés de estabelecer defesas éticas é o mesmo que atirar no próprio pé!
Ao tentar resgatar a confiança do cidadão no judiciário essa questão é crucial: resgatar a confiabilidade no profissional do Direito, naquele que conhece não apenas a lei, mas a ética que acompanha a sua aplicação. É preciso evitar abusos que levam a argumentos infantilóides e nocivos ao ambiente dos julgamentos.

Nisso está incluída a contestação de provas científicas ou depoimentos qualificados com meras palavras ou desprezo à ética profissional. Uma comprovação científica pode ser contestada com outra de semelhante valor. É extremamente ofensivo ouvir advogados jogarem palavras ao vento apenas para balbudiar e confundir, sabendo que jamais serão punidos por esse tipo de ação, que ofende ao magistrado, ao júri e a toda sociedade.

sexta-feira, março 08, 2013

BRUNO PENA LEVE

Talvez seja realmente difícil para a sociedade avaliar a gravidade nas ações que prejudicam a sociedade, partindo de ações individuais criminosas. O que seria digno de maior rigor na aplicação da lei, aquele que rouba um pacote de feijão no supermercado ou enfia peças de vestuário sob a blusa em alguma loja ou quem assalta o cidadão empunhando uma arma e cometendo violência?
O que seria mais grave, um assassino que se aproveita do fato de ser próximo à vítima (quem sabe um parente) ou o marginal que comete latrocínio matando alguém que não conhece motivado pela intenção de rouba-lo?
Qual seria o assassino mais cruel e merecedor de rigorosidade, o sujeito que assalta um banco ou aquele que premedita um assassinato, com detalhes cruéis e hediondos?
Você tem dúvidas? Não, aposto que seu senso de justiça está definido. Quem rouba para comer deve sofrer punição sim,  mas aquele que vive do roubo é mais nocivo e perigoso ao meio e portanto deve sofrer punição mais rigorosa. Óbvio!
Quem premedita um crime cruel é muito mais perigoso do que o sujeito que rouba um banco, ainda que ambos mereçam a prisão.
Então como é que alguém como o ex-goleiro Bruno, que atuou com a ajuda de comparsas altamente perigosos e disso se beneficiou, condenado pelo assassinato da mãe de seu filho,  Elisa Samúdio, tem previsão de livrar-se da cadeia em pouco mais de três anos?
A resposta é fácil: as nossas leis são vergonhosamente confusas, atropelando a ética e permitindo interpretações que acabam encurralando magistrados. No final das contas, costuma-se dizer que consegue-se fazer cumprir a lei, mas não se atinge o objetivo da Justiça!
Isso é vergonhoso!
Condena-se uns, absolve-se outros, prendendo quem é menos nocivo e libertando mentes perigosas, seja na criminalidade comum, seja em crimes de prevaricação. Um simples texto, que não tem explicação moral ou ética, vale um poderoso martelo legal.
Por que  motivo em um país como o nosso ainda permitimos esse tipo de distorção, não se sabe. Existe uma espécie de conformação, sob argumento de que "as coisas são assim", baseando-se não em acertos, mas em erros crassos copiados de outros paises com sistemas viciados e frustrantes que não objetivam a justiça, mas a aplicação de leis...
Contradições que não podem continuar sendo interpretadas como "naturais" ou aceitáveis. O objetivo não é a lei, que pode ser distorcida por interesses políticos. O objetivo é a Justiça. Ou correremos o risco de reduzir cada vez mais a qualidade de vida do cidadão e o futuro da sociedade.

segunda-feira, março 04, 2013

ENGANANDO BAFÔMETROS

O sujeito, um rapaz de 31 anos, é detido por apresentar sinais de embriaguez, confirmada com o teste do bafômetro, de 0,64 miligramas de alcool por litro de sangue e é liberado após pagar fiança de R$ 800,00. Para o carro não ficar detido, uma amiga se prontificou a dirigir o veículo até a casa dele.
Até aí, tudo bem. Esse tipo de situação está se tornando comum. Mas pouco depois o mesmo rapaz morreu ao bater e capotar o veículo. A amiga afirmou que ele "arrancou com o veículo em alta velocidade" quando ela parou em sua casa para pegar a bolsa, antes de leva-lo. Colocando-se na defensiva, declarou que não havia sido submetida ao bafômetro, mesmo tendo se oferecido para dirigir o veículo. O pai do jovem, desesperado, criticou a polícia por ter "liberado o veículo".
O que temos aqui é uma situação típica. A sociedade tem o péssimo hábito de repassar a responsabilidade para autoridades ou instituições em situações que na realidade são definidas por suas própria ações individuais.
A lei é menosprezada. A preocupação de parte dos jovens tem sido a de burlar a lei, tentando enganar o bafômetro com substâncias como o metadoxil, medicamento que é facilmente vendido por farmácias sem receita médica e que pode provocar taquicardia, mal estar e convulsão, não garantindo que o alcool ingerido realmente seja mascarado e tampouco reduzindo o estado de embriaguez.
O que leva essas pessoas a interpretar uma lei que tenta preservar vidas - inclusive a de quem bebe e dirige - como se fosse um estorvo ou um exagero demonstra uma mentalidade pouco realista e imatura. A própria reação das pessoas envolvidas no caso aqui relatado demonstra bem esse estado de incompreensão com determinações que longe de ser imposição, são lógicas. O rapaz que morreu estava ao volante depois de beber seis latas de cerveja; a moça não revelou aos policiais que havia bebido três latas de cerveja, usando essa informação apenas como forma de se defender e incriminar as autoridades policiais que, afinal, agiram de acordo com a lei; o pai, que quer responsabilizar não o filho embriagado ou a sua amiga, mas sim a polícia, esquecendo-se ele próprio que seu filho e a acompanhante deveriam cumprir com a responsabilidade civil. As leis dependem da consciência do indivíduo para evitar as tragédias, não para repassar responsabilidades.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

QUEM DECIDE A ASSISTÊNCIA JURÍDICA GRATUITA

Esta é uma questão para você responder:

A RESOLUÇÃO DA OAB QUE IMPEDE A ASSISTÊNCIA JURÍDICA GRATUITA (OU SEJA, PROIBE OS ADVOGADOS DE PRESTAR ASSISTÊNCIA JURÍDICA E JUDICIÁRIA GRATUITAMENTE) SIGNIFICA O QUE?


A - Um direito da OAB - Ordem dos Advogados do Brasil, em impor essa resolução

B- Um crime que fere os princípios constituicionais do cidadão

C- Um ato ao que contraria os princípios do Direito, que é o de garantir a instituição da Justiça

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Assassinos em hospitais

A sucessão de casos de mortes intencionais em hospitais demonstra bem o estado de falta de controle na autorização do exercício profissional na saúde. Médicos, enfermeiros, tecnicos ou auxiliares de enfermagem enfrentam o receio popular não apenas pela falta de qualificação
profissional, mas pela ausência da  vocação para esse trabalho. Até que ponto essa distorção pode gerar situações de grandes riscos, como assassinatos de pacientes?
Uma equipe médica de Curitiba é suspeita de matar pacientes para liberar leitos de UTI, em troca de boa soma em dinheiro. Este caso alarma e se diferencia de outros assassinatos cometidos por profissionais da saúde por parecer envolver pessoas que aparentemente não se enquadram em uma condição psicopata, como famosos casos de assassinos que se transvestiam de médicos ou enfermeiros com o objetivo de ter alcance a vitimas extremamente vulneráveis.
É o caso do "dr. Morte", nos EUA (o médico Jack Kervokian teria sido responsável por mais de 130 suicídios assistidos) ou dos enfermeiros uruguaios que matavam pacientes injetando ar e morfina (sob alegação de morte piedosa...mesmo em casos de pacientes não terminais). 
Esse tipo de ocorrência impressiona, mesmo que seja tratada como exceção e fruto de mentes desequilibradas. No entanto, no caso da denúncia contra a médica Virgínia Helena Soares de Souza e de sua equipe, a intençao de lucrar com a morte de pacientes tranforma definitivamente a ideia de que o profissional de medicina é uma espécie de "anjo protetor" e os hospitais lugares onde se defende a vida.
Este pode ser um caso raro...ou nem tanto. O que sabemos é que mesmo que haja a existência de profissionais que agem em conjunto em casos escabrosos como este como exceção à regra, a possibilidade de risco deve servir de alerta e provocar medidas de controle da qualificação e ação profissional com maior rigorosidade.
Mesmo porque o principal fator estimulador desses criminosos em agir dentro de hospitais é a facilidade para cometer o crime. 
A postura do profissional deve mudar, para reduzir esse risco. A começar pelo cuidado da direção dos hospitais: denúncias de comportamento ou procedimentos irregulares devem ser consideradas e não negligenciadas, como costuma acontecer. No caso de Curitiba foram feitas várias denúncias de pessoas que perceberam a intenção de matar, mas elas foram neutralizadas durante anos.
Um dos depoimentos diz que essa médica chegou a dizer que "o deus ali na UTI era ela, que decidia quem deveria viver ou morrer"!

PODER DE VIDA E MORTE

Essa frase pode ter sido dita por uma mulher acusada de absoluta frieza em assassinatos de pacientes. Mas a verdade é que ela retrata uma realidadade. O profissional de medicina sabe que tem nas mãos a responsabilidade sobre a vida de outro ser humano. Até que ponto a massificação do ensino da medicina e a ausência de controle sobre a qualificação, inclusive nos períodos de residência médica, podem transformar esse senso de responsabilidade em impressão de poder de vida e morte?
Nas filas em hospitais - não públicos, mas particulares - observa-se cada vez mais um desprezo aos pacientes. Esses lugares transformam-se em empresas administradas com pragmatismo, centradas na necessidade de economizar para gerar mais receita. 
Parece ser o começo do fim da medicina hipocrática. 
Profissionais com vocação, verdadeiramente médicos inseridos na vontade de exercer a medicina e com senso da responsabilidade que essa atividade exige, assistem impotentes à mercantilização da medicina, onde quem perde é a sociedade. 
Entre as distorções estão também restrições pelas administrações dos hospitais. O médico não tem o poder de agir em benefício do paciente, sofrendo restrições das imposições financeiras. Os convênios médicos, que deveriam auxiliar o sistema, terminam por minar a qualidade do atendimento, superlotando espaços e tornando as consultas médicas e outros procedimentos superficiais e insuficientes. 
Em meio a decrescente qualidade de muitos hospitais, que investem na roupagem, em prédios atraentes, mas adotam sistemas de atendimento discutíveis, estão aqueles que investem em qualidade e segurança, valorizando os bons profissionais, mas sem conseguir comportar a demanda. Hoje em dia, também graças à perda de qualidade da medicina preventiva e da figura do "médico de família", as pessoas sentem-se mais doentes e lotam desnecessariamente o atendimento.
As pessoas sentem a vulnerabilidade e reconhecem a sua fragilidade. Falando baixo e olhando para os lados como se estivesse sendo vigiado, um senhor que aguardava atendimento em um hospital particular conveniado, confessou: "não reclamo de jeito nenhum...tenho medo!"
Medo! Pacientes temerosos de falar, de reclamar e ser penalizados de alguma forma no atendimento. Aí está o retrato de nosso atendimento médico de hoje!

quarta-feira, janeiro 02, 2013

A LEI, O TROCADO E O ASSASSINATO

Um universitário foi esfaqueado pelo proprietário de um restaurante no bairro da Enseada, no Guarujá. Dizem que foi por causa de uma diferença de R$ 7,00 na conta, quando o rapaz reivindicou o seu direito de consumidor de pagar conforme o anunciado pelo local.
Pode ser que esse tenha sido o motivo inicial da discussão. Mas matar clientes no próprio restaurante demonstra que existe cada vez mais a impressão de que atos selvagens, motivados pela raiva ou qualquer outra emoção são liberados com a certeza de que a punição será suave...se ela acontecer!
O que mais impressiona neste episódio sangrento é que o assassino, proprietário do restaurante, contou com ajuda de garçons e outras pessoas amigas  para agredir o estudante, quando ele resolveu ligar para a Polícia Militar. E foi nesse clima de agressão covarde, segundo testemunhas, que o assassino agiu, indo até a cozinha do restaurante pegar a faca, para depois executar a vítima.
Poderíamos analisar esse crime hediondo - afinal a vítima não tinha como defender-se e foi realmente surpreendida por um ato improvável - sob diferentes óticas. Uma delas é a impunidade para os crimes violentos, que sempre dependem de grande repercussão na mídia para ser encarados com a gravidade que merecem.
Outra é a suavidade das nossas leis para assassinatos, que terminam sempre em penas mínimas, principalmente se o assassino contar com um bom e caro advogado.
Um terceiro ângulo é o que teria motivado o crime, o fato de uma reclamação ser encarada como uma afronta por pessoas que burlam a lei e se consideram acima dela, também no caso dos direitos do cliente que consome e prestigia o seu negócio.
Também motivados pela impunidade, os criminosos do consumo se aproveitam da confusão ética e legal e lucram grandes somas com os trocados roubados de seus clientes. Vendem gato por lebre, anunciam preços que depois são desrespeitados e servem apenas como chamariz (o que é crime, segundo o Código do Consumidor, que por sua vez é considerado "risível" por muitos comerciantes, inclusive grandes empresas, que alardeiam ser imunes a legislação) e constrangem o cliente que se atrever a reivindicar seu direito legal (o que também é crime previsto).
Mas sejam as desprezadas leis do consumidor, seja o sistema judiciário como um todo, é preciso admitir que cresce a sensação dos criminosos de que  há impunidade. Ceder à raiva e à agressão se torna mais fácil. quando se sabe que haverá "um jeitinho" de se livrar das consequências.
Nada justifica a violência ou qualquer ato extremo que tire a vida de uma pessoa. E no entanto a leveza das penas para assassinos justifica a ocorrência cada vez maior de crimes por motivos banais. Se antes o sujeito enraivecido ia esfriar a cabeça debaixo do chuveiro frio, agora ele se permite agir passionalmente não por sete reais, mas pela clara acusação de abuso da lei. Apenas rigor na punição em defesa da lei pode garantir comportamentos civilizados.

LEIA TAMBÉM: http://leiamirna.blogspot.com.br/2011/04/enfrentando-violencia.html
                           http://leiamirna.blogspot.com.br/2012/02/assassinatos-e-bons-rapazes.html
                           http://leiamirna.blogspot.com.br/2011/12/criancas-assassinas.html
                           http://leiamirna.blogspot.com.br/2010/05/briga-de-vizinhos-rendia-nos-velhos.html

terça-feira, janeiro 01, 2013

MEDICINA E MORTES ANUNCIADAS

O caso da garotinha que morreu ao ser atingida por uma bala perdida (ou não exatamente casual) levantou novamente uma questão gravíssima que vem sendo pouco discutida pela sociedade: até que ponto o profissional de medicina pode errar?
Ao causar de maneira direta ou indireta a morte de um paciente que teoricamente poderia ser salvo, pessoas que têm a responsabilidade de salvar vidas perdem a sua função.
O receio que se tornou pesadelo da sociedade de que alguma coisa está fora do lugar quando o assunto é atendimento médico não tem origem em algum fator desconhecido. Fica claro que estamos formando e despejando no mercado de trabalho profissionais de medicina sem preparo e sem o senso da profunda responsabilidade dessa função.
O assunto é tabú! Por que?
Porque a medicina integra uma daquelas atuações diferenciadas e reverenciadas pelo medo do futuro. Se um magistrado embuído da força de sua toga representa uma figura inatingível e irrepreensível, uma espécie de semi-deus que detém o poder do destino daquele que está julgando, o médico assume esse estado meio divino quando o paciente também se torna absolutamente fragilizado em suas mãos, sabendo que sua saúde e sua vida estará dependente da capacidade daquele profissional.
Não podemos interpretar todas as profissões de uma mesma maneira. Há atuações que tem o peso de vida e morte. A questão não pode ser tratada de maneira artificial e baseada em preceitos e conceitos da economia de mercado.
Medicina é um campo de trabalho que deve estar acima de objetivos financeiros e quaisquer outros que envolvam a superficialidade da vida moderna. Podemos nos enraivecer contra o tecnico que fez um péssimo serviço em nossa tv de última geração ou mandar às favas o pintor que deixou a tinta escorrida no portão. Mas nada podemos fazer para reparar um erro ou uma negligência médica que subtraiu as chances de vida de um semelhante.
É preciso redescutir - e muito - a formação de nossos profissionais de medicina, sua vocação e sua intenção no desempenho da profissão. Caso contrário poderemos tentar criar o mais perfeito sistema de saúde, que ele nunca funcionará. Sem o fator humano responsável, a saúde não funciona. Sem o médico competente e responsável, não há medicina. (MM)

terça-feira, outubro 23, 2012

NÃO SE PODE CRITICAR A JUSTIÇA

Como é que se critica a Justiça?  Impossível. Confunde-se Justiça com sistema judiciário. Podemos criticar o sistema judiciário?
Teoricamente sim, pois um sistema é feito de regras criadas pela própria sociedade. Na prática entretanto apontar falhas ou criticar esse sistema, seja em sua burocracia, seja nas limitações do fator humano, é uma temeridade.
Temeridade pelo fato de que não há real confiança nesse sistema ou no controle eficiente de sua idoneidade. Como exemplo vou lembrar de um acontecimento, quase uma fábula que é usada como exemplo em algumas redações de jornais. Contam que um repórter iniciante escreveu um artigo contundente a respeito da morosidade dos processos, em uma época onde ninguém ousava falar sobre o assunto. No dia seguinte, ao ler o jornal, descobriu que no lugar de sua crítica havia sido publicado um artigo sobre orquídeas. Ao inquirir o chefe sobre o ocorrido recebeu a resposta de que "Justiça não se critica". "Você está louco? Que venham as orquídeas!".
Dizem que quem não deve não teme. Por outro lado, quem é devedor deve pagar sua dívida. Essa relação de medo com o Judiciário demonstra que algo não vai bem. Magistrados devem ser respeitados, não temidos, pois não tem objetivo de prejudicar quem quer que seja, mas estabelecer justiça.
Advogados não devem ser vistos como uma ameaça. Atuam profissionalmente sob preceitos éticos. Não podem, por exemplo, vingar-se de um desafeto usando de seu poder de trânsito nos Tribunais.
Ou podem? É essa desconfiança que torna o n osso sistema judiciário falho e portanto, a Justiça relativa, não absoluta.
Ao denunciar um advogado à OAB, esse profissional irá "vingar-se" do denunciante, interferindo em seus processos? Quais as garantias que o sistema judiciário fornece para preservar o direito a uma denúncia de um colega, seja ele advogado, seja até mesmo um magistrado?
Essas dúvidas reduzem as reclamações contra advogados que não mereceriam o direito de atuar, seja por incompetência, quando causam graves danos aos seus clientes, seja por algum tipo de falha moral.
A OAB mantém um sistema de atendimento para garantir a ética profissional. O cidadão pode munir-se dos documentos e relatar seu prejuízo, que isso será analisado por uma comissão responsável.
Apesar do medo, e esta é a palavra certa, medo, muitas pessoas fazem fila  nos dias de atendimento para denúncias de pessoas que usam a profissão de advogado de maneira pouco ética.
É pouco, muito pouco, para considerarmos que a justiça predomine.
Veja um exemplo de um leitor: o portão da garagem do prédio era acionado por controle remoto. No momento em que o síndico está entrando, o portão para e amassa seu carro. Logo em seguida vem outro morador, que é acusado de ter acionado o seu controle. O caso vai  para a justiça e o síndico pede a irmã advogada que seja defensora, porque ela é amiga do magistrado que vai resolver o acordo e usa como testemunha o porteiro que não estava presente, estava em horario de almoço. Ganhou a causa!
Justiça relativa, que leva ao medo e ao desconforto do cidadão. Pode ser uma exceção, mas não podemos admitir erros que privilegiem culpados e condenem inocentes.
O que faz o cidadão prejudicado?
São apenas exemplos, mas demonstram que o poder entre magistrados e advogados deve ser rigorosamente substituído pela ética. Porque aqueles que cometem os abusos estão tranquilos. Por que? É uma boa pergunta!


segunda-feira, outubro 08, 2012

PODER E ÉTICA NA MEDICINA


Enquanto a medicina evolui constantemente, a imagem do médico  retrocede. É esta a interpretação da sociedade diante do aumento das reclamações contra ações do  profissional de medicina. As longas filas de espera nem sempre são responsabilidade do sistema
Parece haver cada vez consenso no sentido de fazer com que médicos contratados por prefeituras também usem cartão de ponto para registrar horários de entrada e saída em postos de saúde. Reflexo da mudança na postura do profissional, que deixa de manter a aura de dedicação e vocação para ajudar o próximo, para assumir uma mentalidade pragmática e comercial no trato com pacientes.
Obviamente os profissionais de medicina rejeitam a ideia, argumentando que muitas vezes precisam deixar os postos para atendimentos de emergência. O que na verdade acontece raramente.
Esta é apenas uma ponta de um problema crescente, o da ausência de médicos em horários de grande demanda de pacientes, não apenas em postos de saúde, mas em hospitais. Mesmo hospitais particulares mostram o ambiente congestionado, com grande espera, semelhante aos hospitais públicos.
Um dos motivos apontados para esse congestionamento nas redes particulares seria o crescimento dos planos de saúde, o que na verdade não explica nada. Nem tampouco elimina a responsabilidade do profissional de medicina na queda da qualidade do atendimento. Recentemente a funcionaria de um hospital revelou publicamente que a causa da enorme fila de pacientes aguardando o atendimento não era causada por correria dos médicos em plantão. "Eles estão na salinha jogando baralho" |(a "salinha" seria o quarto de descanso, usado no intervalo do atendimento).
Enquanto a população brasileira cresceu em 104,8%  desde os anos 70, o número de médicos no país cresceu 530% . Ao contrário do que se pensa, ao olhar imensas filas em hospitais e salas de espera lotadas em consultórios particulares, não faltam médicos nas regiões superurbanizadas. A conclusão é do CFM - Conselho Federal de Medicina  e do Cremesp-  Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que alerta para uma concentração desigual de profissionais, determinada pelo mercado, pela renda, por disparidades regionais e distribuição das especialidades médicas, mas considera o total de médicos em atividade - mais de 372 mil profissionais - suficientes para cobrir as necessidades do brasileiro.
Resta então a pergunta: se há tão grande numero de profissionais de medicina ativos nas áreas de grande concentração populacional, o que acontece com o exercício da profissão que vem também acumulando ao longo das últimas décadas reclamações cada vez mais frequentes, a ponto de sugerir uma falsa situação de baixo número de profissionais?
Mais preocupada com a qualidade do atendimento do que com a demografia medica no Brasil, a população reclama de piora na qualidade do atendimento não apenas nos sistemas de saúde, mas também nos consultórios, onde a figura do "médico de família" (aquele profissional dedicado e em condições de acompanhar o histórico dos pacientes) se torna raríssima. A ausência de acompanhamento do paciente impede o sucesso nos tratamentos.
Para marcar uma consulta é preciso esperar muito tempo, em alguns casos até dois meses..A esses problemas somam-se outros, como as perigosas "consultas-relâmpago", incompletas e superficiais, que não atingem o objetivo maior que é a prevenção das doenças, e resultam muitas vezes em prescrições de medicamentos para combater sintomas.
Se não há falta de profissionais, oque está acontecendo? Os pacientes reclamam de dois fatores principais: a mercantilização da medicina, com a proliferação dos planos  de saúde, cartéis e mentalidade unicamente  voltada para o capital e a perda dos  valores éticos da profissão, que passaram a ocupar espaço menor na formação do profissional. A baixa na qualidade da formação acadêmica seria outro aspecto importante, agravado pela ausência de um dos complementos mais fundamentais para o profissional de medicina, o período de residência em hospitais, que é na verdade o ensino prático de um trabalho que depende de dedicação e experiência para sua eficiência. (Mirna Monteiro)

terça-feira, setembro 04, 2012

LIMITAÇÕES AO EXERCÍCIO DO JORNALISMO

Teoricamente todos sabem o que é jornalismo. Na prática essa profissão, com toda a sua diversidade,  não está sendo devidamente avaliada. 
Quando se fala em imprensa, a tradução comum  é de "arauto da realidade". É uma característica histórica. 
Essa qualidade de contribuir com transformações no mundo social está sendo cada vez mais sobrepujada pela nova mentalidade que divide o jornalismo em fatias de mercado, a serviço exclusivo de atividades empresariais, tornando o ensino direcionado e resumido a essas condições impostas pelo mercado.

Não seria tão ruim conviver com o jornalismo fatiado, se fossem mantidos os princípios e os estímulos ao jornalismo social, investigativo, intelectual, ético e idealista. Mas a voracidade da mídia está engolindo essa alternativa cada vez mais, criando faculdades e cursos de especializações que sufocam os espaços do jornalismo já em crise de identidade.
Aparentemente há  grande confusão em relação à necessidade de valorização da categoria do jornalismo. Ninguém pode ser contra cursos universitários ou graduações. Todo conhecimento é absolutamente necessário. Jornalismo envolve necessidade de estudo e pesquisa, interminavelmente, enquanto existir um sopro de vida...no jornalista. 

O problema é justamente o contrário: até que ponto corremos risco ao centralizar e limitar as necessidades de formação em jornalismo ao âmbito acadêmico.
Cursar uma faculdade leva a um diploma que indica apenas a formação acadêmica para um mercado muito amplo. O diplomado que chega ao mercado está razoavelmente qualificado para escrever um texto ou coletar dados.

Assessorias de imprensa por exemplo tem um trabalho direcionado, específico, uma modalidade do jornalismo. Trabalhos na mídia em geral idem. Jornalismo virou uma atividade tão diversificada, que perdeu a própria identidade. Confunde-se jornalismo com relações-publicas e publicidade.
Para esse tipo de atividade a faculdade serve bem. Mas raras são aquelas que impulsionam a capacidade de pensar, de digerir as informações com qualidade para repassar a realidade que o leitor busca ávidamente, de mergulhar nas aparências turvas  para trazer do fundo a verdade límpida.

Dependemos todos do jornalismo social, da imprensa informativa, imparcial, teóricamente  sem compromisso com grupos economicos ou políticos. Esse tipo de jornalismo não se aprende simplesmente porque exige qualificações que uma faculdade não pode fornecer, apenas estimular. É o jornalismo intectual, que esclarece aquilo que o público não consegue entender. É o jornalismo emocional, que detecta no meio os desajustes que afetam a sociedade e a colocam em risco; o jornalismo ético, que é em última análise a principal referência dos acontecimentos e sua credibilidade ao cidadão.

A formação do jornalista repórter, editor, articulista, enfim, acontece de maneira espontânea, não tem uma medida universal e não pode ser pasteurizada como disciplina escolar, apenas abordada e estimulada. 
Depende do miolo. Qual é ele? A curiosidade, a sede do conhecimento, prazer pela leitura, pela escrita,  capacidade de absorver informação, de digerir essa informação com qualidade e repassa-la de maneira clara, ética e perfeita para o leitor. 

O ambiente acadêmico é importante fonte de orientação e conhecimento, mas o que vai garantir a ação do jornalismo imparcial, da imprensa livre, são características individuais. Mas mesmo essas qualidades inatas podem ser distorcidas pelo ensino direcionado ao mercado e não ao jornalismo social.

Antes de exigir de uma atividade, que precisa ser livre por natureza, os limites de sua atuação - como a exigência de um diploma de faculdade de jornalismo para o exercício profissional - a sociedade precisa avaliar qual é o tipo de profissional que estamos credenciando. Em que mãos estamos limitando uma ação que é basicamente social, mesmo que sirva a gregos e troianos em sua diversidade. 

Nenhuma sociedade democrática pode prescindir da livre imprensa. A livre expressão não acontece sem que aqueles que se profissionalizam na atividade jornalistica possam explorar livremente a todos e tudo aquilo que se relaciona com o futuro dessa sociedade. 

O que não quer dizer que não haja necessidade de assegurar direitos profissionais para a categoria e responsabilidade de atuação. Justamente pela necessidade de liberdade para averiguar fatos, denuncia-los, explica-los, enfim, atuar diretamente na comunidade, o jornalismo precisa de regras claras e rígidas, onde prevaleça a ética, com dura punição para aventureiros da grande mídia, ou não, que utilizem a força das publicações com objetivos pessoais ou de grupos econômicos e políticos, distorcendo a realidade. 
Com a liberdade de expressão preservada, é preciso enfatizar a responsabilidade do jornalista.

Não é possível comparar o jornalismo com outras profissões. É uma ação única, que objetiva a consciência social. Não podemos enlata-la.
A inteligência artificial pode atingir a perfeição nas correções de textos, na rapidez das pesquisas, na memória dos fatos. Técnicas do jornalismo podem ser adaptadas e até exercidas mecanicamente. 
Mas jamais poderemos substituir ou mecanizar a mente humana e sua capacidade de observar e pensar o meio, de emocionar-se e exercer o senso de justiça e equilíbrio tão fundamentais à harmonia social. 
É preciso avaliar seriamente essa questão, antes de levantar bandeiras que podem condenar o jornalismo a um futuro amorfo e uniformizado, perpetuamente explorado por regras do mercado. (Mirna Monteiro)

sábado, setembro 01, 2012

CANDIDATOS A GRANEL

É impressionante o número de pessoas que disputam o cargo de vereador no próximo pleito. São 449 mil candidatos em todo país, a maioria sem qualquer experiência para a função. Muitos candidatos!  Naturalmente isso interessa aos partidos já que o sistema proporcional  determina o preenchimento de vagas  de acordo com a votação obtida pelo partido ou coligação.
Mas impressiona. E faz pensar: o que significa para todas essas pessoas, extremamente diversificadas, com expectativas e discursos tão indefinidos, conseguir uma cadeira no Legislativo?
A nossa Constituição garante o acesso à candidaturas políticas, no caso do vereador a partir dos 18 anos. Não existe exigência de formação. Teoricamente, todo cidadão que vota pode ser votado. Espera-se naturalmente que aquele que se candidata tenha domínio do conhecimento para poder exercer o cargo caso seja eleito.
Aí é que ocorre o conflito. Se de um lado todos os direitos são iguais e um cidadão comum pode perfeitamente entender de política tanto quanto um doutorado (ou até melhor), de outro é preciso reconhecer que nem todos que concorrem a um cargo político sabem o que isso significa na prática. O candidato a vereador vai legislar, analisar, sugerir ou vetar projetos e outras ações que interferem diretamente na vida da  comunidade.
Mas não é só isso: vai enfrentar uma burocracia até abusiva, regulamentos pouco claros, estratégias de bancadas e pressão de lobistas. Dificilmente uma pessoa que não tem conhecimento mínimo e acompanhamento dessa realidade escapará da malícia e manipulação política.
Ou não? Para grande parte do eleitorado, imaginar um cidadão iniciante em política parece significar renovação ou uma maneira de neutralizar antigos vícios. Talvez se todas as cadeiras de uma Câmara Municipal fossem substituídas por personalidade inéditas em política...mas  aparentemente ocorre o contrário e qualquer noviço que tente modificar a ação legislativa é neutralizado pelo sistema e burocracia existentes. Para aqueles que são convidados pelos partidos ou estimulados a uma candidatura, mais do que a certeza de atuar de maneira eficiente está a sedução de uma atividade bem remunerada, que acena com as vantagens do poder!
É um desafio escolher entre tantos candidatos o seu vereador. Não há tempo para conhece-lo, eles surgem em flashes nos horários gratuitos e congelados, mudos, na propaganda escrita e na poluição dos santinhos. São os "puxadores de voto", ainda assim esperançosos em atingir a meta.

terça-feira, agosto 21, 2012

WIKILEAKS E SAIAS JUSTAS

Julian Assange, o jornalista australiano que colocou em polvorosa a inteligência americana através do Wikileaks, certamente integrará as lendas cibernéticas no futuro, como a personagem que provou ser a internet um mundo onde a ilusão pode ser bruscamente transformada em realidade, ao contrário de livros, jornais e filmes que correm o mundo formando e perpetuando opiniões. Mas no momento enfrenta a dura realidade da perseguição e punição pelo atrevimento de ter denunciado através de vídeos e arquivos secretos ações arbitrárias dos EUA no Iraque e Afeganistão, entre muitos outros documentos, milhares deles.
Assange é hoje um homem perseguido, que tenta salvar a própria pele. Conseguiu asilo político no Equador, mas enfrenta a recusa da Inglaterra em fornecer o salvo-conduto, para que possa deixar a embaixada equatoriana e seguir para o novo espaço.
A situação é extremamente incômoda para os EUA porque o Wikileaks e a divulgação dos documentos sigilosos já trouxeram e mantém à tona denúncias de ações que não podem ser simplesmente ignoradas ou apagadas como borracha com a prisão do criador do site. A Rússia iniciou pressão sobre a questão, já há dois anos atrás, pedindo investigação de fato, clara e minuciosa, das denúncias de abusos, torturas e crimes de guerra que teriam sido cometidos no Iraque. De acordo com o posicionamento oficial da Chancelaria russa, as autoridades americanas não poderiam se concentrar na "caça" a  Assange, mas sim apurar as graves denúncias. Posicionamento que foi claramente ignorado.
O que não impediu que milhões de internautas se envolvessem em críticas e movimentos em favor da liberdade de Julian Assange. O que mais movimenta as redes sociais no momento são petições para permitir que o australiano possa usufruir do direito ao asilo político no Equador, considerando absurda a hesitação da Inglaterra em permitir seu salvo-conduto.
De qualquer maneira, o criador do Wikileaks já entrou para a história e mudou definitivamente a ideia de que politica e estratégias do poder podem ser ocultadas com segurança no meio cibernético. Mostra também que os desafios são outros e que o mesmo poder da informação que antes manipulava tornou-se o poder que hoje levanta o tapete e mostra o que foi varrido para baixo dele.
Um tipo de situação que parece alheia ao esforço humano de dominar o espaço universal com a mentalidade egocêntrica dos tempos bárbaros.
A verdade é que o universo virtual acabou encolhendo o saia de países com alta experiência estrategista no mundo, como os EUA e está cada vez mais impedindo seu movimento no domínio da informação. A porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, declarou que Assange tenta desviar a atenção do "centro da questão", que seria um suposto abuso sexual do qual é acusado na Suécia. Francamente, esse tipo de argumento fortalece ainda mais a ideia generalizada de "caça às bruxas" promovida pelos EUA, que nunca antes em sua história usou todos os recursos da Inteligência e todo seu poder de pressão para que um abuso sexual fosse transformado em caso de política mundial, em detrimento de crimes de guerra que não só envolvem abuso, mas crimes hediondos contra a humanidade.
São contradições que ferem os direitos humanos, respeitados apenas quando há interesse. É o caso do ultimato de Obama, que ameaça com intervenção militar a Síria caso venha a utilizar armas químicas. Armas químicas de fato são hediondas e devem ser combatidas. O que não se entende é por que Obama age com tanta certeza na Síria, esquecendo de apurar denúncias já formais do uso o terrível fósforo branco na Palestina, por Israel.
Contradições que reforçam a necessidade de liberdade para Assange e abrem uma questão que deve ser discutida por todos os países: onde fica o limite entre a garantia da privacidade para a soberania de um país e  o sigilo de ações que colocam a humanidade em risco ou agridem princípios dos direitos universais, tão fundamentais para a paz?

sábado, agosto 04, 2012

PODER E ÉTICA NA MEDICINA

Enquanto a medicina evolui constantemente, a imagem do médico  retrocede. É esta a interpretação da sociedade diante do aumento das reclamações contra ações do  profissional de medicina. As longas filas de espera nem sempre são responsabilidade do sistema
Parece haver cada vez consenso no sentido de fazer com que médicos contratados por prefeituras também usem cartão de ponto para registrar horários de entrada e saída em postos de saúde. Reflexo da mudança na postura do profissional, que deixa de manter a aura de dedicação e vocação para ajudar o próximo, para assumir uma mentalidade pragmática e comercial no trato com pacientes.
Obviamente os profissionais de medicina rejeitam a ideia, argumentando que muitas vezes precisam deixar os postos para atendimentos de emergência. O que na verdade acontece raramente.
Esta é apenas uma ponta de um problema crescente, o da ausência de médicos em horários de grande demanda de pacientes, não apenas em postos de saúde, mas em hospitais. Mesmo hospitais particulares mostram o ambiente congestionado, com grande espera, semelhante aos hospitais públicos.
Um dos motivos apontados para esse congestionamento nas redes particulares seria o crescimento dos planos de saúde, o que na verdade não explica nada. Nem tampouco elimina a responsabilidade do profissional de medicina na queda da qualidade do atendimento. Recentemente a funcionaria de um hospital revelou publicamente que a causa da enorme fila de pacientes aguardando o atendimento não era causada por correria dos médicos em plantão. "Eles estão na salinha jogando baralho" |(a "salinha" seria o quarto de descanso, usado no intervalo do atendimento).
Enquanto a população brasileira cresceu em 104,8%  desde os anos 70, o número de médicos no país cresceu 530% . Ao contrário do que se pensa, ao olhar imensas filas em hospitais e salas de espera lotadas em consultórios particulares, não faltam médicos nas regiões superurbanizadas. A conclusão é do CFM - Conselho Federal de Medicina  e do Cremesp-  Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que alerta para uma concentração desigual de profissionais, determinada pelo mercado, pela renda, por disparidades regionais e distribuição das especialidades médicas, mas considera o total de médicos em atividade - mais de 372 mil profissionais - suficientes para cobrir as necessidades do brasileiro.
Resta então a pergunta: se há tão grande numero de profissionais de medicina ativos nas áreas de grande concentração populacional, o que acontece com o exercício da profissão que vem também acumulando ao longo das últimas décadas reclamações cada vez mais frequentes, a ponto de sugerir uma falsa situação de baixo número de profissionais?
Mais preocupada com a qualidade do atendimento do que com a demografia medica no Brasil, a população reclama de piora na qualidade do atendimento não apenas nos sistemas de saúde, mas também nos consultórios, onde a figura do "médico de família" (aquele profissional dedicado e em condições de acompanhar o histórico dos pacientes) se torna raríssima. A ausência de acompanhamento do paciente impede o sucesso nos tratamentos.
Para marcar uma consulta é preciso esperar muito tempo, em alguns casos até dois meses..A esses problemas somam-se outros, como as perigosas "consultas-relâmpago", incompletas e superficiais, que não atingem o objetivo maior que é a prevenção das doenças, e resultam muitas vezes em prescrições de medicamentos para combater sintomas.
Se não há falta de profissionais, oque está acontecendo? Os pacientes reclamam de dois fatores principais: a mercantilização da medicina, com a proliferação dos planos  de saúde, cartéis e mentalidade unicamente  voltada para o capital e a perda dos  valores éticos da profissão, que passaram a ocupar espaço menor na formação do profissional. A baixa na qualidade da formação acadêmica seria outro aspecto importante, agravado pela ausência de um dos complementos mais fundamentais para o profissional de medicina, o período de residência em hospitais, que é na verdade o ensino prático de um trabalho que depende de dedicação e experiência para sua eficiência. (Mirna Monteiro)

terça-feira, julho 10, 2012

ISRAEL TRATA CRIANÇAS PALESTINAS COM RIGOR SEMELHANTE AO DO NAZISMO

Crianças seriam "ameaça potencial" para Israel
Tratar crianças e adolescentes como perigo potencial, ou uma ameaça futura, foi uma atitude comum no período negro do nazismo e parece se repetir agora em Israel. De acordo com denúncias na imprensa internacional, soldados são ensinados a "vingar" possíveis males que as crianças não judias possam vir a provocar no futuro, quando adultas.
Parece absurdo e sem nexo, mas esse tipo de interpretação consta em um livro, "A Torá do Rei", que afirma textualmente que "é permitido machucar crianças de um líder (inimigo) para pressioná-lo". A lei religiosa judia, a "Halaja", diz que "existe razão para matar bebês dos gentios que são considerados uma futura ameaça". Gentios são todos aqueles que não são judeus.
Absurda, mas comprovada, essa mentalidade que vigora em Israel está sendo denunciada por diversas organizações, como as suiças "Defesa Internacional da Criança" e "Salvar as Crianças". Em um dos relatórios divulgados consta a denúncia de que 370 menores estavam presos em maio em penitenciárias israelenses, três deles menores de 14 anos.
A grande coincidência com o Nazismo, que também
eliminava crianças como forma de evitar
 o "inimigo futuro"
Uma delegação de advogados ingleses, liderada por sir Stephen Sadley, que foi magistrado, chegou à conclusão de que Israel, de fato, viola pelo menos seis vezes a convenção da ONU sobre os direitos das crianças. Um procurador militar de Israel disse ao grupo de advogados que existe "motivos" para isso, já que crianças palestinas seriam "terroristas potenciais". 
Uma alegação muito semelhante à utilizada pelos nazistas quando criticados por eliminar crianças judaicas em lugares como Dachau ou Auschwitz.  
Desde o início da Intifada, que foi uma reação de crianças e jovens palestinos a uma agressão violenta de soldados israelenses, no ano 2 mil, mais de 2.500 menores foram caçados e detidos por Israel, que por ironia é país signatário da Convenção dos Direitos da Criança da ONU.
Enquanto isso aumenta o numero de jovens israelenses que não concorda com a ação de Israel sobre a Palestina. Entre eles os chamados "shministim", estudantes israelenses que terminam o ensino médio e não aceitam o alistamento militar.


leia também  http://leiamirna.blogspot.com.br/2011/03/impressoes-dos-conflitos-no-oriente.html
                       http://leiamirna.blogspot.com.br/2006/08/perguntas-e-perguntas.html

quarta-feira, junho 20, 2012

A RECUSA DE ERUNDINA E O TEMPO DE PROPAGANDA ELEITORAL

"(...) Esse negócio do PT e do Maluf é absurdo(...)É mesmo tão importante assim ter mais tempo na TV?(...)quero saber se alguém justifica isso" . (Alcides Rego- SP) 
"Não acredito em nenhum partido politico, eles agem entre eles, nenhum politico presta" (anônimo)
"(...) parece que o objetivo é confundir.Votei no Lula e na Dilma e acho traição acordo com esse safado do Maluf em SP(...)quando tudo melhora aparece alguma coisa para estragar (...)" (Renan-SP)
"Gostaria de saber sua opinião, achei acertadíssima a recusa da Erundina(...) (Celia P- Santo André)


A questão parece envolver tempo: tempo de propaganda eleitoral, nas rádios e na TV. Costuma-se dizer que em matéria de política, a lógica é invertida. Na verdade é torcida.  Isso porque a política é complexa e volúvel em seus desafios, tanto quanto a diversidade dos interesses. Neste caso as discordâncias do PT em torno dos acordos para a candidatura de Fernando Haddad  à Prefeitura mostraram um dilema:  o principal opositor, o PSDB, tem vantagens do tempo de propaganda, que poderiam ser atenuadas com o tempo do PP, partido de Paulo Maluf, que por sua vez se interessou pelo acordo com o PT.
É difícil "mastigar" as estratégias que envolvem a campanha eleitoral.  Seria bom que a cultura e a politização da população atingissem um nível em que os interesses da maioria automaticamente fossem definidos e administrados. Dessa forma a política seria menos contraditória. Mas as regras eleitorais confundem a lógica popular.
O sistema eleitoral brasileiro é criticado por muitos para determinar o tempo dos partidos para propaganda eleitoral  nas rádios e TV .
Os partidos que lançarem candidatos tem garantia de rateio de um terço do total de tempo de propaganda enquanto os outros dois terços devem ser divididos proporcionalmente ao tamanho de cada bancada na Câmara. Em São Paulo quem tem o maior quinhão é o PSDB. Que por sua vez também está na briga contra o PSD de Kassab, embora tenha obtido vitória sobre o PT ao conseguir fechar com o PR  quarenta inserções de 30 segundos, um tempo considerável em termos de propaganda.
Em política os interesses não se combinam e a maneira de chegar a ações exige negociações para compatibilizar esses interesses. Os  duelos que assistimos frequentemente no Congresso, por exemplo, são uma demonstração clara do jogo desses interesses diversificados.
Em política há sempre acordos e alianças que independem muitas vezes da ideologia dos partidos. Isso ocorre com tanta frequência que o eleitor nem mesmo observa com clareza as momentâneas "amizades" de antigos opositores. O objetivo é vencer. Boas intenções nem sempre vencem o poder da propaganda.
Naturalmente os ganhos e perdas dessas alianças precisam ser pensados. Curiosamente o PSDB que pretendia se aliar também ao PP de Maluf para conseguir mais tempo, não recebeu críticas nessa investida.
Ao recusar-se a aceitar a vice-prefeitura na chapa de Haddad na aliança com o PP, Luiza Erundina colocou em cheque a coerência do partido: Paulo Maluf  envolveu-se em corrupção em seus governos.
Naturalmente a responsabilidade de Paulo Maluf atuar politicamente em um partido que tem tempo de propaganda política para negociar não é do PT. Da mesma forma o fato de PP e de Paulo Maluf  definirem apoio à candidatura de Haddad fornecendo seu tempo para a campanha não significa perdão aos pecados de Maluf, nem tampouco aceitação do político em sua administração.
Mas, como Erundina deixou claro, contraria a sua rígida postura em não ter nenhuma forma de acordo ou aliança com políticos comprometidos com qualquer tipo de irregularidade ou corrupção.
Uma situação difícil de ser resolvida sem correr risco de prejuízo. O PSDB domina o tempo de propaganda eleitoral , em governos consecutivos em São Paulo. O PT se encontra entre a cruz e a espada: ou enfrenta a disputa com aparições e palavras breves (em desvantagem com a ferocidade típica do PSDB nas propagandas) ou arrisca maior tempo para neutralizar os ataques que são característica da estratégia do PSDB. Esta é a lógica, ilógica, de nosso sistema de campanha eleitoral.

terça-feira, junho 12, 2012

CONFUSÃO COM A INFORMAÇÃO

"De que maneira podemos saber se a informação que estamos lendo ou a notícia que estamos ouvindo têm realmente fundamento, são imparciais e reproduzem a verdade? 


http://leiamirna.blogspot.com.br/2012/04/confusao-com-informacao.html

segunda-feira, junho 04, 2012

VEÍCULOS PESADOS SEM CONTROLE

Na rodovia o tráfego parece fluir normalmente, apesar das pistas lotadas de veículos. De repente um caminhão começa a invadir a pista ao lado, retorna e logo adiante quase provoca um acidente ao perder novamente o controle. Os motoristas dos carros que quase foram abalroados na pista ao lado reduzem a velocidade, preocupados. Adiante o caminhão sai de novo da pista.
Provavelmente o motorista desse caminhão estava cansado demais, talvez até oscilando na direção por não resistir ao sono.
Quem acompanhou o fato é obrigado a reconhecer a fragilidade da ordem nas estradas e o quanto estão todos próximos de um grave acidente, a qualquer momento, mesmo mantendo rigorosamente a direção segura, o que não impede que outro veículo cause uma situação de risco.
Excesso de horas de trabalho pode ser um dos motivos que estão pesando no aumento de ocorrências de acidentes graves com ônibus e caminhões. Mas a falta de qualificação na direção de veículos de grande porte, aliada a falta de fiscalização para reprimir abusos, é um fator de peso.
O resultado impressiona: cada vez que um caminhão desgovernado atinge outros veículos, incluindo coletivos, o número de mortos em cada acidente é inevitavelmente grande. Ônibus não possuem cintos de segurança para os passageiros e qualquer freada mais brusca já é perigosa.
Tornar mais rigorosa a fiscalização dos veículos pesados é imprescindível e urgente para evitar um caos maior. O Brasil possui mais de um milhão de caminhoneiros e mais da metade trabalha todos os dias da semana, sem folga. Imagine rodar de 5 a 10 mil quilômetros por mês! São eles, os caminhões, o maior risco nas estradas, seja para veículos de pequeno porte, seja para coletivos.
Apesar do transporte de carga manter um sistema que pressiona o motorista a "ganhar tempo" para não perder dinheiro, os responsáveis pela direção de coletivos também estão sofrendo cada vez mais abusos de carga horária. Antes considerado seguro, o ônibus nas estradas e avenidas ( na área urbana aumentam os atropelamentos, colisões e acidentes onde o veículo invade residências) é uma incógnita perigosa, com abuso da velocidade, irritação crescente dos condutores e falta de habilidade para conduzir esse tipo de transporte.

sexta-feira, junho 01, 2012

MOSQUITOS NO AR

Não foi uma boa decisão política a recusa do senador Desmóstenes Torres em falar sobre as acusações que envolvem Carlinhos Cachoeira com agentes públicos e privados.
O silêncio demonstrou desprezo às investigações e tentativa de desmoralizar a CPI mista do Senado, recurso largamente utilizado pelo próprio Demóstenes em acusações - muitas vezes baseadas apenas em declarações sem provas - a opositores políticos no passado.
A reação do deputado Silvio Costa, de certa maneira, desafogou quem acompanhava o trabalho, não apenas na Comissão, mas também do lado de fora. O interesse do cidadão em obter informações a respeito da ação de parlamentares e de setores influentes cresceu muito nos últimos anos, facilitado pela transmissão das sessões da Câmara e do Senado e de informações gerais das ações do administrativas do governo.
A boca serrada de Demóstenes, agiu na contramão da expectativa popular e da responsabilidade de um parlamentar em justificar seu trabalho ou esclarecer as denúncias de corrupção.

quinta-feira, maio 31, 2012

FUMAÇA SOB CONTROLE

O número de fumantes no Brasil está diminuindo gradativamente. A informação é do Inca - Instituto Nacional do Câncer, em dados coletados através do Programa Antitabagismo. Houve uma queda de 17% em dez anos. (Em dados atualizados o percentual de tabagista passou de 16,2% para 14,8%  desde 2006).
Os números sempre poderiam ser melhores, afirma o Inca.  A Lei Federal 9.294, em vigor desde 1996, proibia o fumo em locais fechados, permitindo fumantes em ambientes apropriados, como os fumódromos.  No final do ano passadio a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que proibe fumo em locais fechados e restringe a publicidade sobre o tabaco.
É um bom começo para o fim do cigarro. Estados que ainda permitiam o cigarro em locais fechados passam a proibir inclusive recintos de fumantes em aeroportos, shoppings e empresas em geral.
Para quem fuma, é uma tortura esse cerco, que cada vez reduz mais a oportunidade de fumaça de cigarros. Mas nem tanto, já que as campanhas contra o fumo também tornaram mais populares - e temidos - os males para o organismo.
É interessante observar o seguinte: no início da campanha anti-tabagismo e de regras que reduziram a área de fumantes,as reclamações foram muitas. O cigarro, diziam, era uma opção individual e proibir esse ato, mesmo pernicioso, era um "atentado" à liberdade do cidadão.
No entanto hoje podemos observar que quem fuma adaptou-se à nova lei que restringe as áreas, com maior tranquilidade do que seria possível prever.
Será possível esperar para os próximos anos uma redução drástica de adeptos do tabagismo? O Brasil possui hoje 25 milhões. Perto de 10% dos fumantes têm entre 15 e 24 anos e 21,5% têm dependência severa do tabaco. 


Esse hábito custa caro, tanto para o bolso do fumante, como para a Saúde Pública. O gasto médio do consumo de um casal fumante, de R$ 1.543 ao ano,  poderia ser aplicado em uma geladeira, um computador,ou uma viagem.
Aliás uma das sugestões de especialistas é de que o cigarro seja trocado por outros prazeres mais saudáveis. A idéia de que o cigarro "acalma" já foi desmistificada cientificamente: o efeito é contrário, daí a necessidade de repetir as baforadas! Quem quiser parar de fumar também deve decidir de vez: parar aos poucos, reduzindo o numero de cigarros, dificulta a superação do vício, pois aumenta a ansiedade.
Quem tem mais dificuldade em abandonar o vício são as mulheres: começam a fumar mais cedo e relutam em parar pois acreditam que o cigarro ajuda a emagrecer...No entanto também são as mulheres que mais desejam uma maneira de fugir dessa situação, que prejudica os dentes e acelera o envelhecimento do organismo, provocando mais rugas também!


Além disso, com a proibição do cigarro em ambientes comuns aos não fumantes, o mau cheiro do cigarro, que fica impregnado nas roupas e na pele, denuncia um fumante de maneira pouco agradável e o diferencia imediatamente das pessoas não fumantes!

O BRASILEIRO ESTÁ MAIS POLITIZADO



Ainda estamos engatinhando em matéria de consciência política, mas estamos indo bem. Hoje em dia encontramos com freqüência pessoas em alguma discussão acalorada sobre partidos políticos, ações de um ou outro cidadão em evidência,  reclamações indignadas sobre corrupção ou abuso do tráfico de influência, seja no Congresso, nas repartições pública e até no nosso sistema judiciário!
Isso é bom. A politização não é um processo fácil, em um país onde  algumas décadas atrás houve uma ditadura militar. Politizar-se é tornar-se um seguidor dos acontecimentos, das ações no meio político e administrativo do país e do mundo! É sobretudo observar o que se passa no Senado, Câmara dos Deputados, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais.
Mesmo porque quanto mais prestamos atenção à política e mais aprendemos sobre o intrincado mecanismo de poder e ação, mais nos damos conta de que não basta votar para presidente da República para arrumar o país. Os sistemas devem trabalhar senão em harmonia, em favor do interesse comum. O uso de cargos públicos para objetivos individuais ou de grupos é uma praga que precisa ser combatida.

O derrotismo diante da força da corrupção está a cada dia mais frágil. Graças a informação mais ampla - a maior já vivenciada pelo país em toda a sua história - o cidadão comum começa a ter elementos para pensar e avaliar o seu meio. Com isso observamos na última década uma mudança gradativa do cenário político e a reconstrução da auto-estima do brasileiro!

A cada dia o cidadão entende que partidos políticos não são "times de futebol". Não precisam de torcida festiva, mas de análise de suas propostas e ações. O que não é fácil, mas perfeitamente possível. Aliás o brasileiro está gradativamente mais realista e crítico.

O problema é que ainda temos um longo caminho pela frente, até que haja maioria da capacidade crítica, a ponto de podermos considerar a politização efetivada . Os jovens ainda tem poucas oportunidades de entender política e seu processo, mas demonstram grande interesse em acompanhar e participar dos fatos. Ainda defendem ações ineficientes, como anulação do voto ( abrindo mão do principal poder de atuação no destino do país) ou acham que o voto em candidatos fora do padrão funciona como forma de protesto, de um sistema que ainda não conseguiram assimilar. Em geral são influenciados por pesquisas eleitorais, nem sempre corretas, e sofrem ainda com a confusão criada entre emotividade e a capacitação real de quem faz as promessas eleitorais.

Mas sem dúvida estão mais participativos e interessados do que as gerações anteriores, o que permite prever um futuro de eleitores mais conscientes e exigentes não apenas em propostas políticas mais realistas, mas principalmente na avaliação de seus resultados. A cada dia está se tornando menos eficiente o "teatro das campanhas", onde candidatos usam de artifícios para desacreditar os opositores ou usam "protocolos de promessas".  (MM)

terça-feira, maio 22, 2012

BACHARELAS E "BACHARELOS"

Agora o diploma de bacharel vai ser diferenciado para as mulheres, que serão bacharelas. É o mesmo caso de mestres e mestras. Podíamos passar sem essa! É o mesmo caso de presidente e presidenta. Ainda que gramáticos como  Luís Antônio Sacconi e  Domingos Paschoal Cegalla admitam essa variação, é uma bobagem, já que mestre, por exemplo, não tem conotação masculina, mas geral, assim como bacharel. Se vamos levar a ferro e fogo, homem jornalista vai querer ser "jornalisto", entre inúmeros outros casos...


Tudo bem! É verdade que a sociedade desde seus primórdios espremeu a figura feminina até transforma-la em uma folha transparente, mas precisamos analisar até que ponto essa mesma sociedade deve resgatar a obvia participação da mulher no mundo através da simples discriminação do gênero, que no final das contas é a menor preocupação diante de tantas discriminações è atuação da mulher nos centros de saber e poder.


Entende-se que essa diferenciação é simbólica e somos obrigados a admitir que tem lá sua função educativa, chamando a atenção para uma questão de profundas raizes políticas e não meramente semânticas. No entanto seria muito mais eficiente e produtivo mudar não para o feminino exaltando o abuso do masculino, mas para a neutralidade, como aliás é o caso de bacharel!


Precisamos aprender a simplificar a língua portuguesa, que já é extremamente diversificada e elaborada até na definição de gêneros. Certamente as maiores transformações não partem de estudiosos, mas do hábito popular, sempre soberano  nas constantes correções e adições do dicionário. (MM)


LEIA TAMBÉM   http://leiamirna.blogspot.com.br/2009/01/pinguim-sem-trema-ideia-sem-acento.html

quinta-feira, maio 03, 2012

Atendimento hospitalar sem cheque caução

Levou muito tempo para que leis e fiscalização acabassem com uma das mais absurdas ações na área de atendimento médico hospitalar em urgências e emergências: a imposição de pagamento antecipado pelos hospitais. A Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que torna crime essa exigência. O problema passou a ser seriamente discutido desde o começo deste ano, quando o secretario de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Duvanier Paiva Ferreira, morreu após ter tido o atendimento negado em dois  hospitais de Brasília, segundo seus familiares, que afirmaram ainda que a internação dependeria da apresentação de um cheque caução.
Quantas pessoas já não morreram assim, em hospitais de todo o país? A norma é garantir o lucro, mesmo em hospitais que recebem ajuda financeira do governo federal. Quer dizer, o próprio hospital deixa de servir ao seu propósito, que não é negociar, mas salvar vidas.
É preciso criar leis rígidas que garantam o exercício da ética em setores que lidam com a vida humana. Um hospital particular não pode recusar um atendimento de emergência ou retardar esse atendimento com exigências de garantias de pagamento!
Há risco de prejuizo? Sem dúvida que há! Mas hospitais não são empresas destinadas ao lucro! De onde surgiu a ideia de que é preciso lucrar com a vida humana?
Essa mesma mentalidade, a de que a saúde e a vida podem prometer grandes lucros financeiros, está presente no estudante que cursa medicina.Aliás, manter faculdades de medicina é lucro certo e o alto custo das mensalidades, em torno de até oito salários mínimos, é justificada com a explicação de que no futuro o estudante irá enriquecer rapidamente.
 Lidar com a vida humana é lucro certo! Clinicas multiplicam-se como formigas, voltadas para a obtenção do dinheiro fácil! Planos de saúde movimentam bilhões, mesmo com falhas absurdas!
Como chegamos nisso, não se sabe exatamente. Em algum espaço entre a figura do médico sério e dedicado e a dos lobbies do ensino particular, o conceito de respeito à vida ficou perdido. Ao mesmo tempo, a qualidade do atendimento, tanto do profissional de medicina quanto de clinicas e hospitais, degradou-se extraordinariamente.
Com a criminalização da recusa do atendimento ou a exigência de formulários preenchidos ou cheques caução para que isso ocorra, é provável que haja uma reabilitação de um setor que perdeu a principal função, que é salvar vidas! E quem sabe reabilitar a função do profissional de medicina, que não pode ver o sofrimento humano como um filão lucrativo.

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