Enquanto você está começando a ler estas linhas, neste momento exato pelo menos duas mulheres estão sendo espancadas.
Neste segundo parágrafo, outra estará sofrendo agressões! E assim vai, interminavel e absurdamente. Calcula-se que a cada dois minutos cinco mulheres sofrem com a violência doméstica. A cada duas horas uma será assassinada!
Camila Duarte, Cenir de Freitas, Mércia Nakashima, Eliza Samúdio, Vanessa Duarte...mulheres que nunca se encontraram na vida, mas que tem em comum o fato de ter sido assassinadas pelos ex-companheiros ou por desconhecidos com motivação sexual. Estas mulheres são apenas uma parte da estatística macabra: em dez anos 41.532 mulheres foram assassinadas. Dez mortes por dia, representando 4 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Não há uma distribuição equitativa da violência, em alguns estados ela praticamente inexiste, em outros a incidência é alarmante, como acontece no Espírito Santo.
São dados constantes em estudo feito pelo Mapa da Violência no Brasil 2010, do Instituto Sangari e da pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc. As vítimas da violência doméstica impressionam neste levantamento: a cada 7 segundos alguma mulher está sofrendo agressões dentro do lar; 68% dos filhos assistem às agressões. Pior: pelo menos 15% das crianças sofrem violência junto com a mãe. Perto de 7 milhões de brasileiras acima de 15 anos já foram agredidas pelo menos uma vez!
É impressionante! A violência contra a mulher não acontece apenas no Brasil, mas o país está se tornando um dos lugares onde a violência doméstica e o assassinato de mulheres tem grande risco. Em todo mundo 70% dos assassinatos de mulheres foram cometidos pelo marido ou companheiro. O lar tornou-se uma armadilha perigosa.
A violência não reside exatamente na necessidade do homem prevalecer sobre mulher, como por exemplo a situação de igualdade social. Seria um comportamento desencadeado por um conjunto de circunstâncias que misturam frustação no meio social - que instigaria o comportamento agressivo - com a vulnerabilidade física feminina ( o homem é dotado de maior força muscular). Ou seja, a mulher é presa fácil, com recursos limitados de defesa. Aspectos culturais favorecem a violência, mas a tendência do indivíduo à passionalidade ou graus de psicopatia também precisam ser considerados.
O maior problema é a permanência da mulher em situação de risco. Via de regra o espancador não comete o crime apenas uma vez e irá repetir a agressão. Quando é desencadeada a agressão, a tendência é o uso cada vez maior da violência física.Qualquer fator externo poderá desembocar no ambiente doméstico a agressão sem limites.
A alternativa é evitar o confronto. Portanto a mulher deve se afastar da relação agressiva. Quando tomar essa atitude - recomendada pelas autoridades que acompanham os casos de violência doméstica - ainda estará em risco: muitos assassinatos acontecem após a dissolução do casamento ou da relação de namoro.
Ainda que pareça uma situação contornável, baseada na determinação de se afastar do agressor, a mulher ainda enfrentará graves riscos. A inconformação com o fato leva alguns homens a atuar como predadores: perseguem e vigiam a ex-mulher e podem cometer assassinato na primeira oportunidade.
É muito difícil para quem enfrenta a situação de agressão e risco de morte retomar a normalidade da vida. Denunciar as ameaças à policia nem sempre impede a ação violenta. O argumento é o de que o marido ou companheiro não pode ser preso e assim permanecer sem que haja um motivo consistente. Ameaças verbais e histórico violento nem sempre são considerados "motivos consistentes". Foi o caso de Eliza Samúdio, que chegou a gravar depoimento comprovando o risco, depois de ter sido espancada e obrigada a beber substância que seria abortiva quando grávida, pressionada pelo então goleiro Bruno Fernandes. Preso por assassinato, o ex-goleiro usa em sua defesa o argumento de que Samúdio era prostituta e atriz pornô...como se isso justificasse matar alguém!
A lei Maria da Penha, de agosto de 2006, ainda não surtiu o efeito desejado. A redução dos casos de violência é ainda pequena, e a prisão dos agressores também é inexpressiva. Com prisões lotadas de traficantes, assaltantes e assassinos, a figura do agressor de mulheres se torna menos urgente para as autoridades policiais. Até cometer o assassinato. É como uma roleta-russa: a mulher que sofre violência doméstica vive no risco de ser assassinada.